Empreendedorismo jovem e de sucesso

A NovaCer conversou durante o 44º Encontro Nacional da Indústria Cerâmica com o jovem empreendedor João Gomes de Andrade Neto, da Cerâmica Salema, na Paraíba. Com 30 anos de idade, Neto trabalha atualmente na direção da Salema e é presidente do Sindicato da Indústria de Cerâmica Vermelha da Paraíba (Sindicer/PB), além de atuar como diretor do Programa Paraibano da Qualidade (PPQ) e fazer parte do GAP/Anicer – Grupo de Apoio à Presidência da Associação Nacional da Indústria Cerâmica. Nesta entrevista, o jovem empreendedor compartilha um pouco de sua experiência na empresa da família e sobre o mercado da cerâmica e da construção civil.  

NovaCer - Qual é a sua visão do mercado hoje, com uma prospecção para os próximos cinco anos? O que você pode falar sobre o mercado da cerâmica e da construção civil?

João Neto - O setor da construção civil nestes últimos cinco anos se beneficiou com a alavancada dos programas de Governo, como o PAC, através do programa Minha Casa Minha Vida. Isto trouxe muito desenvolvimento para as cerâmicas que já existiam, assim como também garantiu a entrada de diversas novas indústrias cerâmicas no mercado. O crescimento do setor construtivo também abriu espaço para novas categorias adentrassem no rol de clientes das cerâmicas, como médicos, advogados, empresários e funcionários públicos, por exemplo, pelo potencial de retorno financeiro do investimento.

Este panorama fez com que as boas cerâmicas se expandissem, conquistassem novos mercados e novos produtos, mas também fez com que muitos aventureiros adentrassem no mercado e arriscassem não somente o seu negócio, como também a imagem do setor. A normatização e formalização se mostrou muito importante neste momento, sendo o diferencial que separa as empresas sérias. Muitas empresas ainda fazem produtos sem alinhamento com as normas técnicas e ambientais e concorrem só pelo preço. Neste tempo de cada vez maior fiscalização, elas ainda não percebem o risco que correm e o quanto isso é prejudicial para todos.

Com os programas de Governo em escassez e a recessão da economia, vejo que as boas cerâmicas, aquelas que se organizaram e já investiram, estão conseguindo reduzir o quadro de funcionários e alinhar as despesas. Já as cerâmicas que investiram tardiamente estão sofrendo agora, bancando investimentos em uma época de vendas baixas. E por último, as que não aproveitaram o período para se organizar, principalmente no fluxo de caixa, estão perdendo mercado para as que garantem qualidade e entrega sem atrasos nas obras.

 

NovaCer - Qual é a sua visão do mercado hoje, com uma prospocção para os próximos cinco anos?

João Neto - Para os próximos cinco anos, vejo que teremos um período de reorganização de processos internos, renegociação de contratos e maior capacitação da gestão da empresa. As decisões de hoje podem comprometer a manutenção da empresa no mercado, portanto é muito importante que sejam estratégicas e de acordo com o porte e capacidade de cada uma. Produtos de baixa rentabilidade devem ser substituídos por linhas de maior valor agregado, através de inovação e aprimoramento da equipe de vendas. Vejo também um período em que precisamos alinhar as características do nosso produto para não perder espaço para os principais concorrentes de outros materiais, e por isto é muito importante que nos mantenhamos unidos para crescermos fortes juntos.

 

NovaCer - Qual o maior desafio do ceramista no mercado brasileiro?

João Neto - Penso que os desafios dos ceramistas variam de acordo com a região. Em algumas partes do país, por exemplo, o concreto está alcançando obras que não temos acesso fácil, por falta de coesão e expressão política. Em outros locais, onde o mercado informal é muito grande, as cerâmicas acabam disputando principalmente com elas mesmas, ou seja, as cerâmicas mais preparadas e organizadas contra cerâmicas com produtos de baixa qualidade, independente do tamanho. Ademais, outro problema ocorre quando a cadeia da construção na região não é bem organizada e não se preocupa com a qualidade do produto e os impactos desta na qualidade e andamento da obra. Desta forma, acaba comprando indiscriminadamente de qualquer olaria.

Existem, além do concreto, outros produtos substitutos, como o isopor, que estão concorrendo fortemente com as lajes. Além disto, a cerâmica está deixando de atuar em alguns segmentos, como o de pisos e intertravados, entre outras especiarias. São setores que tem espaço no mercado através de materiais substitutos, porém o nosso setor têm reduzido seu espaço ao longo do tempo.

O maior desafio, afinal, seria unificar o padrão de qualidade, garantir uma competição justa entre as empresas e que os órgãos fiscais atuassem de forma abrangente, evitando as discrepâncias. Para que isto ocorra, vejo que as indústrias cerâmicas precisam se qualificar, e se unir mais, para encaminhar todo o setor para um caminho próspero.

 

NovaCer – O que você tem para falar sobre o setor na sua região?

João Neto - O Nordeste tem tido índices de crescimento maiores que o resto do país, e isto foi resultado não só dos programas de Governo. A região sempre teve um histórico de baixo desenvolvimento em relação ao Sudeste ou ao Sul. Apesar das críticas ao Governo atual, o foco dado ao Nordeste tem sido percebido na construção civil.

Ainda há muito espaço para crescimento e gente investindo na nossa região. Dessa forma, no Nordeste, uma boa maneira de controlar a crise seria com a melhor estruturação das próprias empresas e em conjunto com o poder público. Temos bons polos cerâmicos em quase todos os estados, como o Piauí, que tem se mostrado bem desenvolvido. Precisamos fazer com que esses bons modelos estejam funcionando bem em todo o Nordeste.

Uma das características que o setor cerâmico tem é a interiorização da indústria. Nossa região já tem uma forte concentração nos grandes polos urbanos das capitais. Deste modo, o setor tem um forte potencial para desenvolvimento da sustentabilidade econômica adentro dos estados.

 


NovaCer - Falando em tecnologia e cerâmica vermelha, o que você tem para falar sobre tecnologia envolvida com a internet, a exemplo de uso de smartphones e tablets. O que a cerâmica precisa fazer hoje para estar presente na internet?

João Neto - A Internet democratizou consideravelmente seu acesso nos dias de hoje. Possuímos site há quase uma década, e tentamos tê-lo cada vez mais próximo das tecnologias, como acesso via celulares e tablets. Também temos um blog com conteúdo próprio e utilizamos toda essa parte de redes sociais a nosso favor, visto que a estrutura está mais acessível e os clientes costumam comentar a favor.

Hoje, por exemplo, para fazer um site de uma cerâmica, em muitos casos o aporte financeiro é mínimo ou quase não existe. O que eu percebo é que carece aos gestores notar o quanto isso é estratégico e que pode ser usado como ferramenta de apoio ao vendedor. Muitas vezes, é o cartão de visita da empresa, e que muitas vezes serve de referência de compra na hora de fechar o negócio. Do mesmo modo, é bom ter cuidado, pois um mal conteúdo também pode prejudicar a imagem da empresa.

Dentro da cerâmica, também há uma série de bons sistemas confiáveis de gestão e controle, que podem ser acessados por estes dispositivos. Hoje, consigo controlar as finanças tanto da empresa como do sindicato diretamente pelo meu celular. São ferramentas que precisam ser avaliadas se serão compatíveis com a equipe da empresa, pois não funcionam sozinhas. Uma equipe ativa e bem capacitada neste caso, é essencial.

 

NovaCer - Tem se falado muito em equipes de vendas na cerâmica, telemarketing, workshops e participações em eventos da construção civil. Qual a tua visão em relação a isso?

João Neto - O marketing de relacionamento, conhecendo cada cliente da sua carteira e atendendo-o individualmente é o melhor caminho sempre, além de ser mais barato. Na grande maioria das cerâmicas, o cliente está próximo e esta relação só fortalece, isto deve ser aproveitado em seu favor. Nos casos em que isso não for possível, existem diversas práticas que podem favorecer este relacionamento, até mesmo um bate papo pelo ‘whatsapp’ para conhecer as necessidades pode ser o diferencial de atendimento.

Os eventos são ótimos canais para alcançar novos públicos, mesmo que não sejam do seu mercado, ou nem mesmo seus consumidores diretos. As cerâmicas têm que fortalecer sua marca inclusive para o cliente final, pois exigirá o seu produto utilizado na obra que adquirir.

Quanto à equipe de vendas, é muito importante que o contato seja frequente com a gestão da empresa. Este alinhamento é necessário pois o vendedor se torna a cara da empresa para o cliente, e caso não corresponda às expectativas do cliente esta parceria pode ser afetada.

 

NovaCer - Qual o maior benefício de ser um ceramista no mercado da construção civil?

João Neto - O maior benefício é trabalhar com um produto que já é tradicional, que já se vende por si próprio, mas ainda te dá margem para inovar e demonstrar o seu diferencial frente ao mercado. É um produto milenar, natural e sem aditivos. Além disso, gera renda, trabalho e interiorização para a sua região.