Capacitação dos colaboradores, por outro lado, é fundamental para qualquer porte da empresa

As indústrias estão em um processo permanente de mecanização e automatização de suas fábricas. Essa realidade é vista por muitos economistas e industriais como um meio importante para a modernização do parque industrial brasileiro. em desenvolvimento desde a Primeira Revolução Industrial, a substituição de mão de obra por máquinas tem como contexto a globalização e a competitividade crescente do mundo empresarial. Entretanto, esse fator influencia diretamente questões sociais, como desemprego estrutural, busca por profissionais com mais qualificação e especialização.

Atualmente, há muitas empresas que apresentam diferentes níveis de integração entre a quantidade de colaboradores e de processos mecanizados. Essa organização é o caso da maioria das indústrias cerâmicas do Brasil, setor formado majoritariamente por micro e pequenas empresas. O consultor técnico da Anicer, Vagner de Oliveira, ressalta que ainda não é possível chamá-la de automatizadas. “Fico meio preocupado em chamar o estágio atual dos fornecedores de máquinas para cerâmica em processo para automação, pois, no meu ponto de vista, há uma tendência de mecanização e não de automação ou seja, de tornar o processo automático”.

Para o consultor, os pontos chaves em que uma empresa deve estruturar antes de falar em automação são: uma área de pesquisa e desenvolvimento, um laboratório interno e, principalmente, o setor de preparação de massa. Porém, Oliveira não acredita que seja possível uma empresa investir em muitos colaboradores, ou seja, em processos manuais e, ao mesmo tempo, automatizar-se. “Esta coexistência, dificilmente existirá, é quase como na física: dois corpos não podem estar no mesmo espaço no mesmo momento; quando um entra o outro tem que sair”, afirma. Ao mesmo tempo, ele reconhece que é preciso evoluir técnica e tecnologicamente no setor de cerâmica, mecanizando-se. “Sim, haverá mudanças no estado e na quantidade de empregos. O grande problema, principalmente para os colaboradores, é quando essa troca não vem acompanhada de capacitação para os mesmos, o que não proporciona a volta desses funcionários para o mercado de trabalho”.

Falta de capacitação profissional

Para a evolução desse processo concentrado na mecanização e automação, vários desafios relevantes, não apenas tecnológicos e organizacionais, mas também sociais, devem ser pensados. A automação pode ser enxergada como algo positivo e/ou ruim em variados pontos de vista. Essa é a opinião de Oliveira. “Se olharmos pelo lado estratégico para o setor cerâmico, é importantíssimo que os ceramistas optem pela automação ou mecanização. Neste quesito, ela não causa prejuízo de emprego, mas causa mudança no nível tecnológico do emprego e, na maioria das vezes, mudança do emprego da região”, explica.

Oliveira ressalta ainda que o grande problema é que não há um programa de devolução de pessoas mais capacitadas para o mercado de trabalho. “Há situações onde um colaborador entre em uma indústria, passa á 10 ou 20 anos, e não recebe nenhum tipo de qualificação na área ou em qualquer outra. Quando isso acontece, não há mudança no nível de emprego no local onde foi instalada a automação/mecanização”, afirma. “Quando eu falo deste processo de automação/mecanização, percebe-se que há necessidade de pessoas melhores capacitadas, pois o controle é maior, os cuidados com os equipamentos devem ser maiores e as máquinas e dispositivos precisam de manutenção, seja ela elétrica, eletrônica, computacional ou mecânica”.

Indústrias e universidades devem dialogar mais

Um dos requisitos indispensáveis para a automação do setor industrial depende da melhoria da capacitação dos seus profissionais nas novas técnicas mecanizadas. Esse processo precisa ser integrado através de cursos de graduação, pós-graduação e reciclagem, baseados numa visão multidisciplinar da área. Neste processo de formação e participação ativa do setor industrial é altamente desejável para o desenvolvimento dos cursos. Esse diálogo pode ser por meio de avaliação, na ajuda  na construção de novos e modernos laboratórios para atividades de ensino e pesquisa, além da oferta de oportunidades de estágios e de projetos que permitam ao estudante testar suas habilidades. Apenas por meio da educação, da qualidade profissional, o gargalo criado pelo desemprego estrutural - a substituição do homem pela máquina - poderá evitar problemas sociais.

“O papel da capacitação é fundamental para a evolução do setor cerâmico. Penso que quando falamos em capacitação, a citação é estendida a toda a organização. Isso significa que se a alta direção não estiver sensibilizada para o processo de automação/mecanização e até mesmo para a necessidade de inovar, a capacitação não acontecerá. O treinamento dos colaboradores, seja para trabalhos mais fáceis ou mais elaborados, deve ser encarado como investimento e não como custo pelo empresário”, atesta Oliveira.

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A automação encontra-se hoje no centro do processo de modernização da economia brasileira, e as indústrias cerâmicas seguem o fluxo. Porém, para isso acontecer sem danos sociais, é preciso haver a conjunção de importantes fatores, como o uso de abordagens metodológicas que considerem, simultaneamente, os aspectos tecnológicos, organizacionais e sociais do problema, em parceria com a definição e implantação de uma política científica na qual Governo, Indústria e Universidade participem efetivamente, cada um com seu respectivo papel. Porém, seja a cerâmica mais mecanizada ou ainda com muitos colaboradores, o ideal é sempre optar pela qualificação da equipe. “O que temos percebido naquelas empresas que investem em capacitação pode ser resumido em uma palavra: sucesso”, finaliza Oliveira.

 


Fonte: Revista da Anicer, ano XIX, ed. 97.